O panorama da longevidade brasileira aponta os caminhos para a saúde na terceira idade 

Diego Rodríguez Velázquez
Por Diego Rodríguez Velázquez
Yuri Silva Portela

O Brasil está envelhecendo mais rápido do que a maioria das pessoas percebe, e o sistema de saúde ainda não se preparou completamente para essa transição. O doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, atua num contexto em que essa transformação demográfica tem consequências concretas e urgentes para comunidades que o sistema ainda não alcança. Afinal, em pouco mais de uma geração, a expectativa de vida dos brasileiros cresceu de forma expressiva, e a proporção de idosos na população deve dobrar nas próximas décadas. Esses números são conquistas reais, mas trazem consigo um desafio que vai além da longevidade: a qualidade dos anos vividos. 

No decorrer deste artigo, você vai entender o que os dados revelam sobre o envelhecimento no Brasil e o que ainda precisa mudar.

O que o envelhecimento populacional significa para a saúde pública?

No momento em que uma população envelhece rapidamente sem que os serviços de saúde se adaptem no mesmo ritmo, o que se produz é uma pressão crescente sobre estruturas que não foram projetadas para o perfil de demanda que o idoso gera. Doenças crônicas múltiplas, necessidade de acompanhamento contínuo, maior sensibilidade a efeitos adversos de medicamentos, demanda por cuidados de longa duração: tudo isso exige um sistema mais especializado, mais coordenado e mais humanizado do que o que atualmente existe em grande parte do território brasileiro.

Como nota o doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria, a escassez de geriatras no Brasil é um dos indicadores mais concretos dessa desproporção. Posto que o país forma muito menos especialistas em envelhecimento do que a demanda atual exige, e a distribuição desses profissionais é ainda mais desequilibrada, concentrada nos grandes centros e praticamente ausente no interior. Essa lacuna não é uma abstração estatística. Ela tem rosto, nome e consequências clínicas reais.

O Nordeste, especialmente o interior, concentra algumas das populações mais vulneráveis a esse descompasso. Idosos com baixa escolaridade, em situação de pobreza, sem acesso regular a serviços especializados e muitas vezes sem uma rede familiar de suporte próxima. É para essas pessoas que o Humaniza Sertão se desloca uma vez por mês no sertão de Quixadá.

O que a qualidade dos anos vividos tem a ver com o cuidado recebido?

A expectativa de vida saudável, que mede não apenas quantos anos a pessoa vive, mas quantos deles são vividos com funcionalidade e qualidade, é o indicador que melhor captura o impacto do cuidado sobre o envelhecimento. Esse número é profundamente influenciado pelo acesso ao acompanhamento geriátrico preventivo, pela qualidade da atenção primária e pela existência de suporte social e comunitário.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Na visão do doutor Yuri Silva Portela, cada consulta geriátrica preventiva realizada num idoso que nunca teve esse acesso é um passo em direção a uma expectativa de vida saudável maior para aquela pessoa. O impacto não é imediato, mas é real e acumulativo. Identificar e tratar hipertensão, sarcopenia, comprometimento cognitivo leve e depressão num idoso de sessenta anos muda o curso do envelhecimento dele de formas que os próximos vinte anos vão revelar.

Como o Humaniza Sertão contribui para esse cenário?

O projeto não pretende resolver a crise demográfica do sistema de saúde brasileiro. Mas contribui, de forma mensurável, para que um grupo específico de pessoas vulneráveis tenha acesso a um cuidado que, de outra forma, jamais chegaria até elas. Em três anos de atuação, essa contribuição se traduz em diagnósticos realizados, tratamentos iniciados, famílias orientadas e comunidades que passaram a se relacionar de forma diferente com a própria saúde.

Sob a ótica do fundador do projeto social Humaniza Sertão, o doutor Yuri Silva Portela, os dados do Brasil sobre envelhecimento são, ao mesmo tempo, um alerta e um convite. Um alerta para que o sistema de saúde se adapte com urgência. E, um convite para que mais profissionais, mais iniciativas e mais políticas públicas se comprometam com a qualidade do envelhecimento de toda a população, não apenas de quem tem acesso facilitado.

Viver mais é uma conquista. Viver bem é uma escolha coletiva. O doutor Yuri Silva Portela acredita que o cuidado humanizado ao idoso é o investimento de maior retorno que o Brasil pode fazer agora. 

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

 

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