Felipe Rassi, especialista em créditos estressados, acompanha de perto um movimento que vem redefinindo o sistema financeiro brasileiro: o volume de créditos não performados atingiu patamares que não eram registrados desde a crise de 2015, e o mercado começa a responder com uma sofisticação operacional inédita.
Segundo dados do Banco Central divulgados em maio de 2026, a inadimplência no segmento corporativo superou 5,8% da carteira total de crédito pessoa jurídica no país, com maior concentração nos setores de varejo, construção civil e agronegócio. Trata-se de um volume que, em termos absolutos, representa mais de R$ 320 bilhões em ativos classificados como non-performing loans no sistema bancário nacional. Para os agentes do mercado financeiro, o cenário não é apenas um alerta de risco: é, também, uma janela estrutural de oportunidades para quem opera com análise técnica e visão de longo prazo.
O que explica o crescimento dos NPLs no ciclo atual?
A elevação das taxas de juros ao longo de 2024 e 2025 pressionou de forma significativa o fluxo de caixa de empresas de médio porte, especialmente aquelas com endividamento atrelado ao CDI ou ao IPCA. Com a Selic oscilando entre 13,75% e 14,75% durante esse período, o custo do serviço da dívida avançou além da capacidade de geração de receita de muitas companhias, tornando inevitável a deterioração de carteiras inteiras de crédito corporativo.
Além do componente de juros, a combinação de retração do consumo, pressão cambial sobre importadores e gargalos logísticos pós-pandemia criou um ambiente propício para o aumento dos estoques de ativos problemáticos. A inadimplência, nesse contexto, deixou de ser um fenômeno pontual e passou a funcionar como um termômetro estrutural da economia.
Due diligence como diferencial competitivo nas aquisições de carteiras
Adquirir carteiras de NPL sem um processo robusto de due diligence financeira equivale a assumir riscos sem a devida mensuração. Felipe Rassi observa que, no mercado atual, a qualidade da análise prévia é o principal fator de diferenciação entre operações bem-sucedidas e exposições mal calibradas.
A due diligence em ativos estressados vai além da verificação documental. Envolve o mapeamento da cadeia de garantias, a avaliação do histórico de pagamentos, a análise de eventuais litígios em curso e a projeção de cenários de recuperação com base em precedentes setoriais. Fundos especializados que dominam essa metodologia têm conseguido adquirir carteiras com deságios entre 60% e 80% do valor de face, com perspectivas de recuperação que justificam o investimento mesmo em ambientes de alta volatilidade.

O papel dos fundos de distressed assets na reestruturação financeira
O crescimento do mercado de distressed assets no Brasil não é um fenômeno isolado. Em 2025, o volume de transações envolvendo carteiras de crédito não performado superou R$ 18 bilhões, de acordo com levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais. A entrada de fundos internacionais especializados, atraídos pelo deságio expressivo e pelo arcabouço jurídico consolidado pela Lei 14.112/2020, ampliou a liquidez do setor e introduziu novos padrões de governança nas operações.
Sob a perspectiva de Felipe Rassi, a maturidade do mercado brasileiro de NPL está diretamente associada à profissionalização dos processos de reestruturação. As operações que antes se limitavam à cobrança judicial passaram a incorporar mecanismos de renegociação estruturada, conversão de dívida em participação societária e reorganização de passivos com envolvimento ativo dos credores.
Tendências que devem moldar o mercado de NPL até 2027
O segundo semestre de 2026 tende a concentrar um volume relevante de novas ofertas de carteiras, à medida que instituições financeiras buscam adequar seus índices de cobertura às exigências regulatórias do Banco Central. A expectativa do setor é de que os descontos médios nas transações se mantenham elevados, sustentando o interesse de compradores com capacidade técnica para estruturar operações complexas.
Felipe Rassi pondera que o movimento de digitalização das operações de crédito também começa a impactar o mercado de ativos estressados. Plataformas de gestão de carteiras NPL com uso de inteligência artificial para scoring de recuperabilidade já estão sendo adotadas por gestoras de médio porte, reduzindo o tempo de análise e aumentando a precisão das projeções de retorno.
A seletividade como princípio de gestão em cenários de inadimplência elevada
Nem todo ativo estressado representa uma oportunidade real. A seletividade na composição do portfólio é, possivelmente, o princípio mais crítico para quem opera nesse mercado. Avaliar a qualidade das garantias, a jurisdição dos litígios, o perfil do devedor e o estágio do ciclo de inadimplência são etapas que determinam, com muito mais precisão do que o preço de aquisição, o potencial de retorno de uma operação.
Na avaliação de Felipe Rassi, a recuperação de ativos em cenários de inadimplência elevada exige uma combinação de rigor técnico, capacidade de negociação e profundo conhecimento do arcabouço legal que regula as operações de crédito no Brasil. Mercados em estresse não perdoam imprecisões metodológicas.
Para gestoras, family offices e investidores institucionais que desejam compreender melhor as dinâmicas do mercado de NPL e identificar oportunidades qualificadas de alocação, acompanhar análises especializadas é um ponto de partida indispensável.
