Um estudo multicêntrico brasileiro, reunindo a Unifesp, o Hospital Israelita Albert Einstein e o HCor, encontrou taxa de sucesso de 100% na eliminação de tumores de mama em estágio inicial usando uma técnica que dispensa completamente o corte cirúrgico tradicional. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues acompanha de perto o avanço da crioablação, procedimento que destrói o tumor por congelamento extremo, guiado em tempo real por imagem de ultrassom, em vez de removê-lo através de cirurgia convencional.
O procedimento acontece em ambiente ambulatorial, sob anestesia apenas local, e utiliza uma agulha especial capaz de atingir temperaturas entre 40 e 160 graus negativos diretamente dentro do tumor. Entender como a radiologia intervencionista chegou a esse ponto e para quais casos essa técnica já é considerada segura ajuda a explicar uma das fronteiras mais promissoras do tratamento oncológico guiado por imagem.
Como um procedimento tão simples consegue eliminar completamente um tumor?
A criosonda, do tamanho aproximado de uma agulha grossa, é posicionada dentro do tumor sob orientação constante de ultrassom, permitindo que o radiologista intervencionista visualize exatamente onde a ponta do instrumento está localizada em tempo real. Uma vez posicionada corretamente, a sonda libera ciclos alternados de congelamento e descongelamento, formando o que a literatura médica descreve como uma bola de gelo que envolve não apenas o tumor, mas também uma margem de segurança de tecido ao redor dele, destruindo as células cancerígenas por necrose causada pelo frio extremo.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, a precisão dessa técnica depende inteiramente da qualidade da imagem que guia o procedimento, já que o radiologista precisa confirmar, durante toda a aplicação, que a zona de congelamento está cobrindo completamente a extensão do tumor, sem deixar áreas sem tratamento nas bordas. Para ele, esse é um exemplo claro de como a radiologia deixou de ser apenas ferramenta de diagnóstico e passou a atuar diretamente como tratamento guiado por imagem.
Para quais tumores essa técnica já é considerada segura o suficiente?
A Sociedade Brasileira de Mastologia orienta que a crioablação, por enquanto, deveria ser reservada a tumores pequenos, preferencialmente menores que um centímetro, únicos e sem qualquer sinal de metástase nos linfonodos axilares. Estudos brasileiros mais recentes ampliaram um pouco essa margem, encontrando eficácia de 100% também em tumores de até dois centímetros, sempre confirmada posteriormente por análise histológica do tecido tratado.

Na avaliação do médico radiologista, Dr. Vinicius Rodrigues, essa evolução mostra o caminho natural de qualquer nova técnica em medicina: começar restrita aos casos mais favoráveis e ir ampliando seus limites conforme mais estudos confirmam segurança e eficácia em cenários um pouco mais desafiadores. Ele reforça, porém, que, fora desses critérios específicos, a cirurgia convencional continua sendo o tratamento padrão e comprovado, sem substituição recomendada pela crioablação neste momento.
Como os médicos confirmam que o tumor foi realmente destruído por completo?
Depois do procedimento, a paciente costuma realizar uma ressonância magnética para verificar se ainda existem sinais de atividade tumoral na região tratada. Em protocolos de pesquisa, algumas semanas depois, ainda é realizada uma cirurgia para retirar o tecido da área tratada, permitindo que os pesquisadores confirmem, por análise histológica direta, se a destruição das células cancerígenas foi realmente completa, etapa essencial para validar cientificamente a técnica antes de dispensar totalmente a cirurgia no futuro.
Para o Dr. Vinicius Rodrigues, essa fase intermediária de validação, em que a crioablação ainda é seguida de cirurgia confirmatória, é exatamente o tipo de rigor metodológico que deveria anteceder qualquer mudança de protocolo dentro do sistema público de saúde. Ele reforça que pular etapas de validação científica em nome de oferecer rapidamente uma técnica promissora seria um erro capaz de comprometer a segurança de futuras pacientes.
Quantas mulheres poderiam se beneficiar dessa técnica caso ela se confirme plenamente segura?
Pesquisadores envolvidos nesses estudos estimam que entre 20% e 30% das pacientes atualmente na fila de espera do SUS para tratamento de câncer de mama poderiam se beneficiar dessa abordagem, especialmente aquelas com tumores pequenos, sem invasão linfonodal, ou com contraindicação para procedimentos cirúrgicos tradicionais, seja por outras condições de saúde, seja pelo desejo de preservar ao máximo a estética da própria mama.
O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues reforça que, caso os próximos estudos comparativos confirmem os resultados já observados, a crioablação pode representar redução real de fila cirúrgica dentro do sistema público, além de menor tempo de recuperação e menor impacto físico para uma parcela relevante de pacientes com câncer de mama em estágio inicial. Para ele, esse tipo de inovação ilustra bem como a radiologia intervencionista amplia, ano após ano, sua participação direta no próprio tratamento do câncer, e não apenas em seu diagnóstico.
Em síntese, a crioablação ainda não substitui a cirurgia convencional para a maioria das pacientes, mas já mostra um caminho concreto de tratamento menos invasivo para casos bem selecionados. Acompanhar de perto essa evolução científica, sem antecipar conclusões que os estudos ainda estão em processo de confirmar, é a postura mais responsável diante de uma tecnologia que já desperta expectativa real entre pacientes e especialistas.
