O Espetáculo Grotesco da Política: Como os Cortes da Internet Transformam o Debate Público

Stanislav Zaitsev
By Stanislav Zaitsev

Nos últimos tempos, a política brasileira tem sido marcada por um fenômeno peculiar: o uso estratégico de situações grotescas e impensadas para gerar repercussão nas redes sociais. O episódio envolvendo José Luiz Datena e Pablo Marçal, durante um debate político recente, é um exemplo clássico dessa nova dinâmica, onde o impacto na internet tem se tornado mais relevante do que o próprio conteúdo político. Esse tipo de comportamento não é apenas uma escolha pessoal, mas reflete a tendência crescente de se construir campanhas políticas na base do espetáculo e do choque, alimentadas pelo potencial de viralização nas plataformas digitais.

O que antes era uma disputa pautada pela troca de propostas e argumentos, como nos debates tradicionais, hoje se transformou em um verdadeiro palco de ações espetaculares e atitudes impensadas. José Luiz Datena, conhecido por sua postura combativa e por vezes explosiva, protagonizou um momento histórico ao arremessar uma cadeira contra o coach Pablo Marçal, que, pressionado pelas baixas pesquisas eleitorais, buscava a todo custo causar controvérsias. Essa cena emblemática, ao invés de provocar reflexão política, gerou um tsunami de memes e cortes que rapidamente se espalharam pela internet. A política, nesse contexto, parece cada vez mais se tornar um jogo de imagens e atitudes que possam capturar a atenção de uma audiência que tem a memória curta e se alimenta de conteúdos rápidos e impactantes.

Por trás dessas atitudes grotescas, há uma estratégia clara de “trumperização” das campanhas, um termo que remonta ao estilo agressivo e sensacionalista de Donald Trump. A ideia de provocar o adversário, ultrapassando os limites do aceitável, para criar algo que se torne viral, é uma estratégia que vem ganhando força no Brasil. Não importa se a proposta política é rasa ou incoerente, o importante é que o público se esqueça do debate político e apenas se divirta com o espetáculo. Nesse cenário, a substância das propostas perde espaço para a forma e a dramaticidade do confronto.

A relevância dos “cortes” da internet nesse processo é inegável. Em uma era dominada por plataformas como TikTok e Instagram, onde a atenção das pessoas é fragmentada e o conteúdo é consumido em doses curtas, as imagens que chocam e surpreendem ganham uma visibilidade impressionante. Pablo Marçal, ao ser atacado por Datena, conseguiu a tão almejada visibilidade, mesmo que isso tenha ocorrido em um ambiente de agressividade e desrespeito. O que importa, para ele e para muitos outros políticos e influenciadores, não é necessariamente o conteúdo do que se diz, mas o impacto que se pode gerar. Isso reflete uma mudança na forma como entendemos a política: de um processo de convencimento e troca de ideias, passou a ser uma disputa pela atenção, pela emoção e, principalmente, pela aprovação nas redes sociais.

Porém, esse comportamento grotesco não é exclusivo da política. Ele permeia diversas áreas da sociedade contemporânea. A busca pelo sensacionalismo e pelo choque está presente também no entretenimento, nas redes sociais e até no jornalismo. A pressão por atenção constante tem levado cada vez mais pessoas a adotarem posturas extremas, sejam para vender produtos, construir uma imagem ou, no caso específico de Marçal e Datena, alcançar o poder. A política, assim como qualquer outro segmento, se adapta a essa lógica, tornando-se mais uma arena de disputas pela atenção pública do que pela defesa de propostas e ideias sólidas.

Porém, como bem alertou o filósofo Friedrich Nietzsche, a risada fácil e o espetáculo barato podem ser traiçoeiros. O povo que ri de Zaratustra, em sua obra, o faz com uma frieza distante e impessoal. Assim, é importante questionar: o povo realmente se importa com o que está sendo dito, ou o que eles estão aplaudindo é a forma e a provocação? No caso de Pablo Marçal, a exposição gerada pela agressão de Datena pode ser vista como uma vitória momentânea, mas será que ela se converterá em votos reais nas urnas? O risco de ser visto apenas como um palhaço da política é grande, e a consequência disso pode ser um afastamento ainda maior do eleitorado que busca propostas consistentes e responsáveis.

A política não pode se reduzir a um jogo de imagem e entretenimento. Apesar da pressão das redes sociais, onde as emoções e os escândalos têm mais peso do que a racionalidade, é preciso lembrar que o voto não deve ser tratado como um simples clique em busca de diversão. A apatia política gerada por esses fenômenos pode ser perigosa, pois enfraquece o processo democrático e promove uma cultura de desinformação e alienação. Em vez de debates substantivos e construtivos, o que vemos são batalhas superficiais travadas por aqueles que mais sabem como se expor do que como realmente atuar em benefício da população.

É preciso refletir sobre os rumos que estamos tomando enquanto sociedade e enquanto eleitores. O espetáculo grotesco, alimentado por cortes de internet, pode até gerar risos momentâneos, mas o que realmente está em jogo é o futuro do país e das decisões políticas que impactam a vida de todos. Podemos rir e compartilhar memes, mas não podemos nos esquecer de que a política é um terreno onde, mais do que nunca, precisamos de um debate sério e maduro, que vá além dos cortes e das cenas chocantes que dominam as timelines. O futuro da política no Brasil, e no mundo, exige mais do que isso: exige reflexão, respeito e, principalmente, propostas que possam transformar de verdade a sociedade.

Neste cenário de espetacularização da política, o desafio está em reverter a lógica do grotesco e do vazio para um espaço de debate verdadeiro e construtivo. É preciso, como sociedade, escolher não apenas o que nos faz rir, mas o que nos faz pensar e agir de maneira mais consciente e responsável. As redes sociais e os cortes rápidos podem ser uma ferramenta poderosa para divulgar ideias, mas que elas não substituam a verdadeira essência do debate político, que é a busca pela justiça, pelo bem-estar coletivo e pela construção de um país melhor para todos.

Autor: Stanislav Zaitsev

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